sábado, 19 de abril de 2008

Analfabetismo Funcional

P: Adoro meu amado, mas ultimamente, está me dando nos nervos! Parece que a gente fala línguas diferentes. Eu falo uma coisa, ele entende outra. Às vezes, mal começo uma frase, e ele já vai completando… O que está acontecendo? Lisandra, TO
R: Lisandra: que é um problema de comunicação, isto você já sabe. Mas por que ocorrem estas “leituras” diferentes? E dá para superar isto? Bem, é um problema mais comum do que parece. Ocorre não só entre casais, mas também nas relações pais-filhos (quem nunca se exasperou com a linguagem incompreensível dos jovens?) ou chefes-subordinados.

Analfabetismo funcional

Escutar ou ler, sem compreender a mensagem, é o que se chama de analfabetismo funcional. Há algum tempo atrás, fiz uma série de vídeos na área médica. O problema: superar a barreira de comunicação entre médicos e enfermeiras. Os dois lados se queixavam um do outro. Quem tinha razão? Todos e ninguém, mas é usual que as pessoas utilizem palavras que não dominam, for a do contexto. Um dos relatos (enquanto fazia a pesquisa para o roteiro) era assim:
Enfermeira: Pois então, o paciente era totalmente afásico, uma afasia global!
Eu: E foi o médico que deu o diagnóstico?
Enfermeira: Não! Foi próprio paciente que me disse.
Detalhe: na afasia global a pessoa não consegue se comunicar…

Um estrangeiro no próprio país
Não entender o que outro diz ou escreve faz da pessoa um estrangeiro em seu próprio país. Em propaganda, a mensagem que não atinge o seu objetivo significa cliente perdido – e os exemplos são muitos. Cada público, cada cultura, cada segmento tem sua própria forma de se comunicar e, por isso, é necessário entender as diferenças. Só entender não basta: respeitar e se esforçar para criar pontes com o outro é fundamental. Mesmo neste mundo globalizado e internacionalizado, marketing e propaganda precisam se adequar a cada região. Ou o que você pensaria se lesse um cartaz assim:
“Vendo negrinhos por bom preço. Na lomba, logo após o farol.”
Negrinhos? Estamos então na época da escravidão? Ora, “negrinho” é o nome que se usa no Rio Grande do Sul para “brigadeiro”, o docinho brasileiro típico de aniversário, feito com leite condensado e chocolate. Lomba é o mesmo que subida. Farol é o sinal de trânsito. Existem exemplos engraçadíssimos, envolvendo palavrões ou símbolos inadequados em propaganda.

Perigos da suposição

Não se deve subestimar o outro mas, ao mesmo tempo, também é importante não “imaginar” o que a pessoa sente, pense ou fala. É a tal história do todo mundo e ninguém: você acredita que o outro esta entendendo, ou fazendo alguma coisa. Quando vai ver… o OUTRO achou que você é que deveria ter dito, feito, pago, etc. e tal. Você faz uma brincadeira: as pessoas levam a sério. Você fala sério. As pessoas levam na brincadeira. Pronto. Está feita a confusão. Mas da para evitar, ou reduzir estes ruídos. Uma forma é, desde cedo, ampliar os horizontes de quem está sendo alfabetizado. O Projeto Ler e Ser tem este objetivo, porque mais do aprender a perceber palavras, é importante reconhecer o significado. Outra, utilizar algumas ferramentas para evitar mal-entendidos, que todo bom publicitário conhece: falar a mesma mensagem com diferentes abordagens, monitorar o feedback, não pressupor respostas.
E, finalmente, ter paciência, porque senão… os erros ficam grotescos. Veja a propaganda ao lado, que saiu na Revista Vogue, aquele número tão controverso com a foto da Gisele na capa, junto com o LeBron. Pressa da nisto. Tentar ser perfeito demais ao comunicar, também. O que é isto na saboneteira da modelo?

A ESTRATEGIA
1. Não gostou do que ouviu? Antes de partir para o ataque, respire fundo.
Coloque, em outras palavras, a mesma frase e confira: ‘e isto mesmo que você quer dizer? Você pode se surpreender com a resposta!
2. Resista à tentação de ter sempre a última palavra. Muitas vezes, não importam as conclusões, mas o processo, a dinâmica que se cria.
3. Não adianta falar a mesma coisa mais alto: o problema não é de surdez, mas de universos de linguagem diferentes. Experimente criar comparações e analogias (muito usado em propaganda) ou desloque a opinião, tomando por referencia outra pessoa (o famoso testemunhal). Isto tira um pouco do peso emocional e permite a retomada do diálogo.

13 comentários:

Georgia disse...

Ethel, muito bom. Adoro ler os seus texto. Depois me envia o link do Projeto Ler e Ser, fiquei interessada.

A questao de se entender a linguagem é problemática mesmo. Você imagina aqui em casa os cuidados que eu tenho, pois o esposo mesmo falando o português e sendo alemao, a nossa cultura é diferente demais. Sempre estamos fazendo um exemplo daquilo que estamos discutindo. Para que o outro possa entender o que estamos realamente discutindo. E olha, muita coisa pode ser mesmo evitada quando falamos claramente aquilo que é para ser dito e melhor ainda ser entendido pela outra parte em questao. Existe um provéribio, acho que chinês, que se você grita com o outro é porque o seu coracao está longe. Exatamente como vc colocou na questao: Nao é um problema de surdez, mas de entendimento.

Obrigada pela participacao.

Abracos Georgia

Anônimo disse...

Ando precisando estudar maneiras de me comunicar satisfatoriamente, de me fazer ouvir, principalmente...Chega uma hora que vc se cansa, acaba desistindo...
Uma pergunta: blog é espaço aberto, todo mundo pode opinar? Fala sobre isso, pois ando "descobrindo" blogs, e fico "doida" pra dar minha opinião...Está certo isso? Tenho o pensamento, recorrente, que sempre estou incomodando, que não serei bem aceita, essas coisas...
Lúcia Soares

universodesconexo disse...

Ei gatona :) Ando precisando colocar essa tecnica em meu blog. As vezes eu falo abobrinha e as pessoas entendem abacaxi. E se falar bem do governo entao ai eh que a casa cai e o povo fica cego e nao consegue ler mais nada. Tudo que eu fale entrara para o campo das discordancias e serei bombardeada com todas as frases fornecidas como salvatorias pela midia brasileria :) Sera esse o efeito da midia alfabetizadora funcional ?

Aqui na Inglaterra quando a gente nao entende algo o povo repete exatamente a mesma frase mais alto e na mesma velocidade que antes. Eles nao entendem que as vezes nao entendemos uma palavra ou outra, ou que eles falaram rapido demais. Preferem acreditar que somos surdos.

E eu nao consegui ver o problema da saboneteira da modelo. Sei que explicar piada ninguem merece mas eu nao entendi.

E quando eh que voce estara em Sampa ? Ah... quando eu estiver de volta definitivamente, em uma dessas suas passadas rapidas a gente tem que se encontrar.

bjs
Lys

Ricardo Rayol disse...

Pois é só se policiando.

Mary disse...

É assim, uns dias de férias por vezes fazem milagres.
Tem selos para ti lá no Manias se quiseres é só passar e pegar.
Beijokas!!!

Herbert Drummond disse...

Scliar,
Não sei bem se você curte, mas a intenção é pura. Tem um sêlo de reconhecimento (meme) para o Womarket, lá no galpão da Oficina de Gerência. Recebi o gesto do Ronaldo e você foi uma das minhas escolhidas.
Gostaria de aproveitar a oportunidade e convidá-la a escrever um texto para que eu o publique na Oficina. Fique à vontade com o tema. Não tem "copy-desk" por lá. O que me diz?
Voltarei por aqui para saber. Saudações bloguísticas (ou seria... blogueiras?)

Lucia Cintra Stevenson disse...

Concordo com a Georgia. Comunicacao em geral ja e' dificil, ainda mais quando temos culturas diferentes e falamos linguas tb diferentes. Varias vezes conversando com meu marido, a gente ja interpretou o que o outro quis dizer erradamente devido ao significado da palavra (mesmo sendo a mesma) ser diferente nas duas culturas. A comunicacao e respeito sao essenciais e muito importante pra que nao haja desentendimento ou ressentimento. bjos

Depois dos 25, mas antes do 40! disse...

Comunicar-se é algo difícil principalmente hoje em dia quando ninguém está mais se preocupando com nada! Se soubesse com como uma palvrinha tem poder...! Ufa!!!

Beijocas milll

aDesenhar disse...

cheguei
li
e
devo dizer
humildemente
que saio daqui
mais rico
porque foi proveitosa
a leitura sobre
o Analfabetismo funcional.
:-)

Andréa Motta disse...

Adorei seu post sobre analfabetismo funcional. Muito bom! Aproveito para agradecer a visita ao meu blog. Boa quinta!

Ulisses Adirt disse...

Ótimas as dicas finais... quem ensina deveria sempre tê-las em mente...

Fernanda - www.fernandafranca.com disse...

Ethel, eu acrescento ainda a falta de VONTADE de muitas pessoas em OUVIR. O outro tenta continuar a frase porque supõe que sabe o que a pessoa vai dizer, mas não se preocupa em ouvir, em saber o que é realmente. A boa comunicação é falar e ouvir, em doses que nenhuma acabe com a outra, não é? Beijo enorme, Fê. www.fernandafranca.com

Aninha Pontes disse...

Ethel, como não estou conseguindo responder meus comentários, vim até aqui para te dizer que adorei suas sugestões sobre a campanha.
Já estive ontem na escola e conversei com a coordenadora que também já aprovou sua idéia de troca entre as crianças, e também a possibilidade de termos por aqui alguém que possa falar aos pequenos, numa forma de incentivo.
Devo falra esses próximos dias com alguns amigos para ver se já consigo para logo isso.
Quanto à sua ajuda, agradeço, muito.
Estive olhando ontem lá, e o número de títulos deles é mesmo muito pequeno, mas existe apesar disso a preocupação em levar a leitura até eles.
Devo publicar nos próximos dias, quais as maiores necessidade, uma vez que me pediram isso, porque alguns amigos vão adquirir em sebo alguma coisa pra mandar.
Vou colocando no blog todas as novidades nos próximos dias.
Obrigada.
Um beijo.