
R: O mundo virtual toca no real, afinal de contas, por trás da máquina existe um ser de carne e osso. Mas o que diferencia os dois? Vou destacar alguns pontos. O primeiro, é que no mundo virtual, com um toque de mouse, dá para o mudar o cenário, as gentes, ou até mesmo desligar tudo. Já o mundo real não tem controle remoto (até que seria bom!).
Fantasia perfeita
Outro ponto importante é que o mundo virtual pode ser um mundo de sonhos. A perfeição até existe. É o mundo de sonhos da propaganda: as mulheres acordam sem remela no olho; o olho nunca está inchado! Ninguém tem bafo, nem chulé. O café da manhã… Deus meu! Nunca vi o leite derramar. As crianças aprontam-se rapidinho para a escolha, sem choro nem vela. E nos bares, então? O garçom está sempre bem humorado e atende ao primeiro sinal, trazendo o chope estupidamente gelado. De tanto ver estas imagens (a repetição faz parte dos princípios da propaganda, princípio este estabelecido por, quem diria, Hitler!), a gente acaba acreditando nelas. E o mundo da Internet criou um espaço perfeito para reforçar tais imagens.
Erros de leitura
O problema é que as mensagens transitam livremente entre os dois mundos e levam a interpretações diferentes, provocando toda a confusão. Tive um cliente -acho que a empresa existe até hoje: na época, fabricava discos, os bolachões, longplays (será que se transformaram em cds?) e, na primeira reunião, do alto dos meus 23 aninhos esplêndidos, comecei a defender a criação. Só que o fulano não parava de piscar para mim! Eu, totalmente sem jeito. O que fazer? Será que este desinfeliz estava me cantando? Ai, ai, ai. Saia justa total. Eu continuei, firme, fingindo que nada acontecia (cadê aquele controle remoto que eu falei lá em cima, para mudar o canal do mundo?). Como não dava para deletar o cliente, fazer o quê? Olhava pros lados, concentrava nas peças. Finalmente acabou. Ao chegar na agência, o pessoal comentou: -Dá até nervoso este cliente, não é? Ele não para de piscar!
Pois então: era um cacoete. Nada comigo não. Ufa! Já pensou se eu tivesse saído brigando por causa deste assédio que não era assédio?
Cada coisa em seu lugar
Por isso, nunca é demais lembrar: nem sempre o que se vê é o que parece ser. No caso das “paqueras virtuais”, as duas – ou três partes – precisam definir o quê significa o quê. Também não custa lembrar que fantasia é apenas fantasia, na Internet ou na propaganda. Ela pode fazer muito bem para a saúde, como válvula de escape para as tensões diárias. Mas também pode gerar mais frustração, quando se impõem como única maneira para as pessoas se sentirem felizes e desejadas.
A estratégia
1. Uma relação está em constante construção: defina quais os tijolos que são fundamentais e quais são os elementos decorativos.
2. Deixe isto claro antes de fazer qualquer “reforma” e confira se a outra parte concorda!
3. O que para você é virtual, para o outro pode ser real. Não misture os canais.
4. Investigue o valor e o tempo que você está dedicando para cada um destes mundos. O que gera satisfação ou insatisfação? E até que ponto isto não é uma imposição da Geração Prozac, que recusa qualquer tipo de tristeza, por pressão da indústria e da propaganda? Pense nisto.